Por que os jovens não gostam de ler

“Os jovens brasileiros não gostam de ler”

Se você nunca ouviu essa frase, seja na rua ou na escola, acredite que essa ideia de que existe uma certa aversão do jovem à leitura é amplamente difundida, e hoje vamos refletir – será que isso é realmente verdade?

A leitura na escola

Pensar sobre porque o jovem não gosta de ler, ou na maioria dos casos, não tem o hábito de ler, começa com uma reflexão sobre o ambiente escolar. Eu trabalhei durante três anos em bibliotecas de escolas públicas e trabalho há dois anos em uma biblioteca pública para a comunidade em geral, e nesse tempo pude perceber muitas coisas, tanto positivas quanto negativas:

  • Bibliotecas são utilizadas como espaço de castigo na escola
  • Maioria das bibliotecas escolares tem problemas com relação à estrutura e/ou ao acervo
  • Os livros que são pedidos nas leituras obrigatórias acabam por criar barreiras entre o leitor e o que ele realmente gosta de ler
  • Algumas pessoas nem sabem que existem bibliotecas públicas ou como funcionam
  • Muitas vezes o ambiente acaba excluindo certas pessoas da possibilidade de desfrutar da leitura
  • Muitos pais tentam obrigar os filhos a ler ao invés de dar o exemplo e deixá-los cientes de que aquela possibilidade existe
  • De castigo na biblioteca, quem nunca?

Pela minha experiência muitas vezes o problema começa bem cedo, com a biblioteca sendo usada como espaço para deixar alunos de castigo, ou então, nos momentos em que faltam professores. Quando essa situação ocorre, uma mensagem sutilmente passada às crianças – a biblioteca não é um local gostoso de se estar.

Começar lendo o livro do vestibular? Me parece loucura

Uma coisa muito comum, é a pessoa fazer a sua primeira visita à biblioteca para pegar os livros da leitura obrigatória do vestibular. Eu sei muito bem que existe um motivo para que cada livro seja pedido e entendo a importância de todos eles, mas também me pergunto quanto essas leituras de fato contribuem para a formação de leitores.

Recentemente tive a oportunidade de ler O Apanhador no Campo de Centeio, e foi quando eu comecei a realmente entender porque os clássicos são clássicos. Agora pedir para alguém ler Dom Casmurro como a sua primeira leitura me parece um pouco pesado. Que tal começar com John Green ou Tillie Cole?

A biblioteca pública é realmente acessível a todos?

Existir uma biblioteca pública e ela atender toda a população são duas coisas bem diferentes. Sabemos que um dos problemas no acesso à leitura é o preço elevado dos livros, nesse ponto a biblioteca pública parece a solução perfeita, mas não é bem assim que funciona.

De cara temos um grande problema que é a falta de acesso à informação, se isso é ou não proposital fica para ser discutido em outro momento. Muitas pessoas sequer sabem que tem uma biblioteca pública perto de casa ou se sabem não entendem muito bem como funciona, se precisa pagar para usar, e coisas do tipo.

Muitas vezes o ambiente também não é acolhedor para uma pessoa que não está acostumada a ler, dessa maneira a biblioteca não forma novos leitores, apenas acolhe aqueles que já traziam o hábito de ler com eles.

Só se pode ensinar pelo exemplo

De nada adianta tentar motivar alguém a ler se você mesmo não gosta ou não tem o hábito. Isso é muito válido para pais e mentores que muitas vezes destacam os efeitos positivos da leitura, porém eles mesmos não possuem o hábito. Contraditório eu diria.

Então se você quer que alguma pessoa querida comece a ler, conte para ela sobre seu livro favorito e porquê você o ama tanto, isso sim vai fazer com que seus olhos brilhem e talvez um amor desperte, inicialmente em forma de curiosidade.

O medo de perder alguma coisa (FOMO – fear of missing out)

Outro fator que com certeza contribui muito para lermos menos são as nossas amadas redes sociais, e o fenômeno cada vez mais presente nas vidas de todas as pessoas, apelidado de FOMO, que nada mais é que o medo de perder alguma coisa, o que acaba forçando algumas pessoas a ficarem o tempo todo conectadas na rede simplesmente para o caso de algo acontecer.

A leitura é uma atividade que exige um certo nível de concentração, e você com certeza não vai conseguir ler se pegar o seu celular para conferir as notificações a cada cinco minutos. O lado positivo aqui é que a leitura pode justamente te ajudar a se desconectar um pouco e começar a perder esse hábito de estar conectado constantemente.

Os benefícios da leitura

Existem diversas pesquisas que comprovam os benefícios da leitura para a nossa vida e para o funcionamento do nosso cérebro. Vou listar aqui os citados com mais frequência:

  1. Provoca empatia
  2. Melhora o senso crítico
  3. Aumenta o número de conexões neurais no cérebro
  4. Estimula a criatividade
  5. Reduz o stress
  6. Ajuda a dormir melhor
  7. Ler te ajuda a escrever melhor
  8. Ler previne Alzheimer
  9. A leitura é terapêutica assim como a música e o cinema
  10. Ler te torna menos preconceituoso e mais rico culturalmente
  11. Amplia seu vocabulário
  12. Quem lê tem mais assuntos sobre os quais conversar

A lista de benefícios poderia continuar indefinidamente e nunca chegaríamos ao fim, mas já deu para entender que a leitura é uma janela de oportunidade imensa que podemos aproveitar para melhorar nossas vidas.

Gostaria de deixar muito claro aqui, que eu, Marcos, vejo a leitura como uma possibilidade, uma alternativa para todos esses benefícios, não acreditando que ela seja o único caminhos como vejo muitas pessoas fazerem. Algumas fazendo parecer até que a leitura é um caminho mágico que vai resolver todos os seus problemas.

Acredito muito em outros meio que podem nos ajudar em todas essas coisas como, por exemplo: filmes, teatro, música, coletivos, animes, e também, conversar com pessoas mais velhas.

Os jovens realmente não gostam de ler?

Vou encerrar o texto com essa reflexão – diante de todas as dificuldades para ingressar no mundo da leitura e da imensa quantidade de coisas que tentam a todo segundo roubar a nossa atenção, não acredito que o jovem não goste de ler, e também não acredito que ele leia pouco.

Acredito apenas que somos a combinação de uma geração tecnológica que ainda não aprendeu a usar a tecnologia a seu favor e uma geração que ainda não se reinventou o suficiente para encontrar maneiras de motivar os jovens a lerem.

Eu poderia me estender aqui falando sobre o e-readers, que são basicamente leitores de livros digitais, e que podem democratizar o acesso à leitura, tanto pelos preços menores dos livros eletrônicos quanto pela grande quantidade de livros em domínio público, mas isso fica para uma postagem que virá em breve.

Carinhosamente
Marcos Mariano

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