Resenha: “Fragmentos”, da escritora Mara Gatti

Quando a história de um livro é também a sua história

Título: Fragmentos
Autora: Mara Gatti
Onde comprar: Amazon
Sinopse: Bem-vindo à sala de estar Mara Gatti. O leitor deste livro tem um encontro com a intimidade da escritora. Há neste livro uma confortável sala de ser. Como uma varanda de visitas que acolhe o leitor como observador da parte do todo, como se olhasse o apartamento por onde escreve\vive na gentileza de sua escrita em alocar móveis, cômodas; toda bagagem da autora rumo a um autoconhecimento com várias pessoas em uma. Mara Gatti investiga suas angústias drapeadas em lençóis de pergaminho, traços de suas andanças pelos analistas que não só investigam a dor da vida, mas também fazem uma janela na mulher ao projetar escutas, vozes, narrações que amplificam um passado em reconhecimento. Fragmentar-se em múltiplas personagens que sedimentam cada quarto acolhedor de espaços reservados à palavra que solta da garganta, faz trabalhar a dor de um assédio, de uma agressividade absurda, fazendo a moradora se preservar no banheiro da sua nudez. Mara neste seu primeiro livro chamado Fragmentos faz um diário-relato dentro de uma locação que é puro teatro, pois, lida com a linguagem abrasiva do drama, no cerne da vibração do movimento ao outro; da vontade plena de ser ficção real como todas as letras do Alfabeto.

Fernando Andrade

Fragmentos de Thay
Fragmentos de Thay

Como foi minha experiência lendo Fragmentos

Esse mês tive o prazer de receber e ler o primeiro livro da autora Mara Gatti, Fragmentos, que conta a história de Sarah, uma mulher que sofre com depressão, TEPT, ansiedade e, mais pra frente, recebe mais diagnósticos, como síndrome de Burnout e transtorno de personalidade borderline, durante sua luta entre a vontade de deixar de existir com o impulso de querer viver.

O livro chegou com um autógrafo e uma frase do livro, escrito a caneta pela autora, e achei isso muito atencioso.
Gostaria de começar minha resenha no “estilo” do livro, com fragmentos das minhas primeiras impressões que fui anotando conforme lia:

Você pode gostar:  7 livros parecidos com Minha vida fora de série

O primeiro ponto é que este livro tem um sumário, eu não sei bem porquê, mas eu gosto muito de livros que tem sumário (infelizmente a maioria dos capítulos não tem nome no sumário, que é algo que me agrada muito também), além de ter ilustrações feitas pela própria autora, que é algo que extremamente interessante para a história.
O livro alterna na narrativa entre primeira e terceira pessoa, no começo isso não me agradou muito, mas depois me senti realmente num bate-papo com a personagem, como se alguém me contasse a história dela e, às vezes, ela viesse intervir e adicionar seu toque de como foram as coisas.

Além disso, temos também os textos da personagem, confesso que os primeiros textos não me agradaram muito, em especial o primeiro, que é um pouco longo e muito detalhista (eu gosto de leituras fluidas, então não sou muito fã de detalhes demais), mas ao longo do livro comecei a gostar dos textos, me fizeram sentir próxima da personagem e do que se passava dentro da cabeça dela.

A Sarah, quando criança e adolescentes, era abusada, o que lhe causou um grande TEPT e depressão severa, o estresse com a vida, o trabalho, a cobrança, muitas vezes vindas dela própria, e a correria do trabalho lhe causaram uma síndrome de Burnout, e nós acompanhamos no livro a jornada dela durante esse momento de crise, junto aos problemas com INSS, o medo de não ser mais capaz de trabalhar e, ao mesmo tempo, o medo de voltar ao trabalho.

Ao longo do livro eu fui me identificando muito com a personagem, eu também sofri um abuso quando criança (mas foi apenas uma vez, e de uma pessoa desconhecida, ao contrário da Sarah que sofreu abusos constantes de alguém de dentro da própria família e casa), o fato dela se culpar pelo abuso é algo que fez eu me sentir compreendida, porque por muito tempo eu me culpei pelo que aconteceu comigo.

Além disto, eu também estou com problemas de saúde e passando pela mesma dificuldade com o INSS que ela passou, durante o relato da Sarah da dificuldade que passava com o INSS, o medo de nunca mais estar apta a trabalhar, somado ao medo de ter que voltar a trabalhar antes de estar pronta realmente, me fez sentir vontade de entrar naa páginas do livro, lhe dar um abraço e dizer “eu entendo pelo que você está passando, e ninguém merece passar por isso”.

Retorno à leitura após diversas pausas
Retorno à leitura após diversas pausas

O “problema” com toda essa identificação que eu tive, foi que eu, muitas vezes, precisei parar um pouco a leitura e respirar, já que estou vivendo algo muito parecido, então muitas das falas, e situações pelas quais a Sarah passou, me causaram gatilho, o que fez com que a minha leitura do livro fosse mais lenta do que eu gostaria.

Você pode gostar:  The Boys: Diferenças entre a série e a HQ

Os problemas com INSS, o abuso, a tortura de esperar passar por perícia médica (e até mesmo ser negado seu pedido, por pior que você esteja), os textos escritos nos momentos de crise, o flerte com o suicídio e o “não existir”, ler tudo isso, e mer ver descrita ali, foi algo que doeu, mas, ao mesmo tempo, ver alguém, mesmo que irreal, passando pelo mesmo que eu, e ficando tão fragilizada com tudo isso, me fez perceber que tudo bem eu não estar bem com tudo isso, contanto que eu não deixe de procurar ajuda psicológica para passar por isto.

O livro mostra uma tentativa de suicídio da personagem que me causou extrema correspondência com ela. A personagem liga para o CVV e, após ter um péssimo atendimento, tenta suicídio, mas acaba buscando ajuda. Eu passei exatamente pela mesma coisa, tive uma crise muito forte, liguei para o CVV, demorei quase 2 horas para ser atendida, e no final meu atendimento foi péssimo. Neste dia eu também atentei contra a minha vida, mas acho que o sopro que restava de querer viver, não me deixou tomar a quantidade de compridos suficiente, assim como a personagem que tem um impulso em viver e busca ajuda.

Outra coisa que me chamou muito a atenção foi ver o quanto uma criação conservadora pode dificultar que as crianças entendam certos aspectos da vida, como a família da personagem não falava sobre sexo, nem mesmo sobre educação sexual, a personagem sofreu abusos por anos, sem saber exatamente o que estava acontecendo com ela. Isso me fez refletir sobre a importância da educação sexual, para que nenhuma criança passe por isso, e nem tenha como contar que sofreu um abuso, por não entender o que é aquilo que ela está vivenciando.

Você pode gostar:  Dr. Stone: Resenha feita por um cientista

O relato da estadia da Sarah numa casa de repouso foi lindo, o modo como ela retratou as pessoas que conheceu lá, me tocou, ver a personagem tão fragilizada e ao mesmo tempo buscando por conexões e entendimento, foi algo que me fez gostar mais ainda dessa personagem. As falas da personagem sobre as conexões perdidas com os amigos, por ela própria se afastar deles, me trouxe muita identificação também. Após a saída da Sarah da clínica de repouso, sua luta continua, e eu gostei muito de ver que o livro não terminou com ela vencendo a depressão milagrosamente, mas sim lutando um dia de cada vez.

Cuidado com o spoiler

A única coisa que realmente me desagradou no livro (contém possível spoiler), foi o fato de não ser contado quem abusava dela, eu não gosto de pontas soltas, por mais que sejam a intenção do/a autor/a, mas na metade do livro eu já tinha certeza que essa ponta ficaria solta, por mais que tivesse esperança de nas últimas páginas esse mistério ser revelado. (Fim do spoiler)

No geral, o livro é maravilhoso e o modo que foi escrito nos faz sentir próxima da personagem, mas não recomendo a leitura num momento que o leitor esteja fragilizado, porque será uma leitura extremamente dolorosa, mas, ao mesmo tempo, mostrará o quanto é importante que tenhamos ajuda psicológica/psiquiátrica nesses momentos de fragilidade, e o quão importante é nos agarrarmos a qualquer impulso de viver.

Thay Vasconcelos

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.